Quinta-feira, Novembro 28

 
HOJE

Hoje teve sorrisos e vontades contidas de falar. Hoje teve uma vontade imensa de calcinar o imponderável, fixar irrealidades dentro de sonhos engavetados dentro do coração. Hoje houve sorrisos dentro dessa cor cinza que tomou conta de todas as horas. A cidade ganhou uma moldura noir de me prender em todas as nuances, um pouquinho a cada pensamento... a cada momento em que eu via tudo pela janela do ônibus - eu sentado no último banco, disc-man tocando sonhos em preto e branco. Uma palidez enevoada nos muros, nas calçadas, nos monumentos, no colorido de guarda-chuvas renovados. Hoje tinha história para contar. Hoje houve um banho de chuva quando cheguei... e ninguém para dividir a experiência - ou somar as alegrias.








Quarta-feira, Novembro 27

 
ESPERA

Fica um barulho pequeno de incapacidade no ar. Cansei de esperar e preciso de movimentos. Quem muito espera cria raízes nos pés e fica ali fincado e inerte até o fim de tudo, acumulado de musgo e visgo, envelhecendo e apodrecendo e esperando sempre o próximo trem que vai passar. Se ainda tiver alguma composição correndo nesses trilhos...

***

MOVIMENTOS

Na espera do tempo, um breve momento, seletivas horas... Desenho teu tormento opaco que fustiga na madrugada sem aurora, sem alento... Pensei em você. Plantei crisálidas noturnas para que te beijassem nessa noite sem movimento... Queria mesmo te dar asas, te ver sobre as casas junto ao passaredo, levitando nas alturas que te causavam medo. Queria indicar direções, fluir verdes emoções entre o arvoredo e que um sol amarelo de renascimento dispersasse brumas traçando novos destinos. Por isso... agora... nesse instante de luz... planto girassóis.









Terça-feira, Novembro 26

 
ALUMBRADO

Descobri que existem coisas dentro de mim que eu não sei tocar, e que me tocam incertas, desconexas e gritantes a toda hora. Percebi que amo estradas e seus contornos, todas as variantes: caminhos, pedras, pontes, terras, atalhos, trilhas.. cruzamentos... Sei que escapa de mim uma exposição imprópria e dolorosa, uma carícia que faço no impossível, e afago tolos devaneios porque ontem à noite aconteceu um momento, uma janela se abriu e fui salvo pelas tuas mãos quando a noite célere espreitava nuances, e contumaz, me cercava toda cheia de dedos no revés de um pensamento. Aconteceu em mim um momento breve, estou leve e entregue, acordado que fui pelas mãos de Deus, no canto de pássaros matinais. Notei que dentro de mim existe um espaço que eu desconhecia, que eu não sei para onde leva e nem o que me traz de verdades escondidas. Mas lá ainda é possível vislumbrar o brilho de todas as chaves... Porque te amo além de mim e de qualquer entendimentó. Porque te amo aquém do tempo e de tudo que é compreensível. E lá naquele lugar isso bastou, naquele momento... isso me completou.

"Tudo o que move é sagrado e remove as montanhas com todo cuidado, meu amor..." ( Milton Nascimento )








Segunda-feira, Novembro 25

 
NECESSIDADE?

Não sei o que dizer. Me sinto seco, árido, vazio de motivos, murcho de razões e de novas inspirações. Me sinto pequeno diante de tanta janela, ocioso diante dessa rede gigante, e me pego indagando por quês intermináveis. Para que escrever, por quê me perturbar, macular a beleza desse pensamento profundo tentando transformar imagens em palavras? - Porque preciso. Para que tentar traduzir o modo como me tocam certas canções, certas lembranças, cheiros e desejos, beijos e abraços? - Porque indeciso... ups, preciso. Quero alimentar essa procissão de contrastes, porque é assim que me confundo. Quero invadir o domínio do Destino que não se cumpre, e ser a vontade, a verdade, o sacro desejo que se acaba nas cores dos horizontes que não se realizam.

"estou cheio de me sentir vazio" ( Renato Russo )





Sábado, Novembro 23

 
NÉVOA

Ansiedade consumindo horas do meu dia largo de desejos, de anseios, de esperas, de decepções, de muito querer. Enquanto tentava dormir, era abraçado por tudo isso junto, o que me tornava disperso, imerso nessa melancolia de criar desatinos. Na minha caneca preferida, café fumegante sorvido com avidez enquanto eu via a lua pela porta da varandinha. Faltou uma palavra que ficou pendurada no momento, faltaram os motivos dentro da ansiedade imprevista, faltou mistério nas frações empoeiradas das minhas vontades antigas e proibidas. Faltou um cigarro. Mas não faltou vontade de fumar. Sobrou força de vontade para evitar. Mais uma vez, enquanto precisar...



Sexta-feira, Novembro 22

 
CARTA 2 ( sobre o velho desconhecido )

O velho tinha olhos de colher meu ser por dentro. Dizia tudo que eu sentia, queria e sonhava, em arroubos de pura clarividência. Eu, pasmado sem poder ignorá-lo, voltava sempre, e com a mão aberta lhe pedia sem falar. O velho, cheio de sabedoria, me olhava aflito por não querer me ver em tristeza, mas cheio de honra nas tradições lançou-me o que chamaria de "ler a sorte", mesmo que ela a mim não viesse.
Na hora da resposta, não vinha a voz, não vinha a palavra. Só a minha vontade calada, por um suspiro antecipada. E sem hora marcada, sem despedida e nem mão dada, foi-se um abraço suspirado.
Às vezes me sinto como uma folha pálida e esmaecida em dias de outono, ela, de vida sugada e caída, vida vertida em alegrias idas, sem esperanças vindas, suspira um último orvalho alento, e se despede na tardinha fria com olhar de quem passou da hora.
Lavo os dias e perfumo recados, vontades beijadas em pausas intermináveis. Verto pensamentos ao velho nos céus de cores fugídias, onde sóis de tristezas engavetam corações de estrelas e a chuva molha a acidez das horas. Carece purificação o meu ser: água de cheiro, medo e desejo.
Correm céleres as ventanias dispersas no meu caminho de pedra. Correm em afagos descomedidos de um querer insistente. É latente essa vontade de gritar o que quero, o que procuro. Seria muito simples que as pessoas me dessem o que delas espero. Mas espero demais e os dias vertem cansaço no meu corpo. Olhos abaixados esperando respostas para indagações que surgem me atando. Mas nada vem, nenhum som amigo, nem estrelas cadentes no céu, nada. Resta apenas esse sólido e solitário desejo de realizar.
Vejo constantemente dentro de mim uma imagem cristalizada, são pequenos moinhos velhos girando, guardando pedaços de dias passados, anseios concebidos. Vejo imagens num grande outdoor colorido. É minha paciência branca construindo um novo caminho e uma nova pousada onde eu possa recostar meu corpo em dias cansados. É nesses dias que esqueço a vontade de ficar acordado e peço ombros ao travesseiro. Dias de reconstruir meu céu de estrelas cadentes onde amarro minha ilusão diluida na chuva que me traz a limpidez de pensamentos e um jeito de dormir em paz.
E no meu sonho, ficava esperando o velho, que viria num trem ao meu encontro. Parado na nuvem de poeira que me mantinha calado, enxergava pouco do que se passava a minha volta na estação. Era um punhado de gente passando apressada e olhando pra baixo que mal dava pra ver os olhos. Os olhos que revelam tudo para mim ficavam obscuros naquela gente esvaída, gente que parecia surgida de lendas. E eu, ficava quietinho na espreita, porque num daqueles vagões, a qualquer momento, surgiria o velho, quem sabe, trazendo respostas.
Mas quando ele chegou, apontou em direção ao trem e me pediu para seguir viagem... sozinho. Perguntei se era para muito longe, se precisaria de bagagem, essas coisas. Ele sorriu, apenas.
Olhei nos seus olhos. Ele entendeu tudo o que eu queria dizer. Queria dizer que só não queria me esquecer nessa viagem. Porque é importante que eu me escute e me realize. Também gostaria de me cumprir enquanto promessa, mesmo que promessa mal feita. E não aceitaria essa desfeita de mim mesmo. Não hoje, não agora.
Outra vez, o velho sorriu. Eu parti numa viagem onde os trilhos correm de fora para dentro, vendo paisagens desconhecidas no mirante de colher esperas. Acho que o velho se antecipou e me espera lá no final, quando finalmente, eu despertar desse sonho.




 
Texto da Luciana que eu roubei do Psicodog :

"a tempestade caía forte quando ela acordou. olhou pela janela e sentiu preguiça. muita preguiça. voltou a deitar, escondida sob o cobertor de lã quentinha. por quanto tempo ficaria ali? pela eternidade, talvez. mas a eternidade também é relativa e minutos depois, uma espreguiçada e um pulo da cama. o telefone chama. é a realidade, que não se esconde nunca debaixo do cobertor. levanta e anda. levanta e toma banho. levanta e escreve. levanta e decide. levanta e enfrenta. levanta e sofre. levanta e segue. anda. anda. ANDA!"





Quarta-feira, Novembro 20

 
NO ESPELHO

Existe em mim, alguém que sorri e que chora, que nunca demora e que está sempre ali. Existe também, aquele que perde a hora, que nunca escreve, mas sempre se entrega. Existem reflexos de mim em tudo o que faço, nas coisas que almejo e, dentro dos meus segredos. Existem verdades no espelho, dentro do giz da retina, suave menina que acomoda naufrágios. Existe verdade no olhar embaçado de conter toda uma noite de silêncios. Existe verdade na verdade das olheiras reveladoras, na barba por fazer, nos cabelos por pentear, no sorriso por acontecer. Nem sempre sei se sou aquele que olha e vê essas coisas, ou se sou aquele que está lá dentro preso e inerte. Existe verdade no fato de olhar e ver e não me saber, não me reconhecer, porque nem sempre sou o mesmo ali enfrentando o reflexo cotidiano e diário desse espelho de mostrar absurdos.


"Palavras têm gosto de nada / Mas se você nem quer saber o que eu penso / Quem vai poder entender / Meu mundo de duplo sentido? / Qual desses homens sou eu... / refletido no espelho partido?" ( Paulinho Moska )












Terça-feira, Novembro 19

 
CARTA ( para o divã )

Os dias tem sido muito iguais.
Novidades? Perguntam.
Não, tudo na mesma. Respondo.
Sabe, gosto de observar as coisas, os movimentos do mundo. Gosto de ver pessoas passando, pais e mães cuidando dos filhos, o jeito de olhar dos mais velhos, nuvens movimentando-se no céu, ondas quebrando nas pedras...
Normalmente acabo vagando nesses momentos. Divago os movimentos e eles meio que me embalam, sei lá.
Hoje me peguei assim. Parado com olhar distante perdido no nada, na frente, um grande cannyon de incertezas.
Como agora. Nossos olhares atados e eu sem saber direito o que fazer. Se pudesse dar finalmente o grande salto e mergulhar nas incertezas, e guardar por dentro todas as vontades esmorecidas da minha vida guiada e solitária, mesmo saltando alheio e sozinho, procurando novos rumos e caminhos concretos, longe da quietude dispersa, da quimera imersa, colhendo dentro de mim toda a poesia que me falta agora, para te dar as imagens do salto, da fuga, do mergulho... Mas não consigo.
Me sinto assim, sempre quando se aproxima a hora de ir dormir, o medo me toma e não saio do lugar.
Guardo uma noite inteira dentro do meu semblante carregado. Uma noite inteira de degredo, ausência e segredo. Uma noite de arfar peito debruçado em janelas que me oferecem visões das mais belas paisagens. E não sei se mergulho, se me atiro pela janela, se vago no escuro dessa noite interminável clamando fuga aos meus fantasmas.
Vejo uma cancela aberta, mas a dúvida me arrebata o coração libriano. Nunca sei se fico ou se vou. E o alvorecer já é tardio demais, me sinto cada vez menos dentro dessa noite, me sinto ausente de tudo e apenas vejo brilhando uma lua cheia, cuja luz alumia todo o meu coração minguante e vazio. Então adormeço.
Um pouco de paz, né? Mas bem pouco...
Acordei como sempre acordo:
Continuando a desfiar os mesmos pensamentos de quando havia ido dormir.
Mas quando fui até a varanda, sopraram ventos mudos dentro do meu peito largo nesta manhã. Um vento tardio que emudeceu meu dia inteiro. Um momento pronto que havia em meu coração, como uma ferida teimando cicatrizar.
Sentia ruindo os caminhos em que eu tentava fincar os pés. Cada tentativa velada oferecia nova chaga descoberta.
Havia no vento um louco destemperado rindo de mim. Eu queria ser valente e lutar, mas me sentia tão pequenino, e mais chorava do que lutava, custava me dar por vencido, mas não sabia como enfrentar com armas de menino o temeroso e inabalável Destino.
E continuo sem saber. Mas de qualquer forma não será hoje, pelo menos não agora, né? Dezessete horas, acabou a sessão... E o louco destemperado está lá fora, me esperando, rindo de mim...




Segunda-feira, Novembro 18

 
COLAGENS


Preciso de palavras centradas, de palavras com pé no chão – mas tudo é asa, avião de papel, passarinho, sonho, anjo... e essa vontade de voar tão maior que eu.


***


Está tudo contido. Guardado dentro de mim. Essa vontade de estar... de dizer... de sorrir... de começar... de enfeitar... de percorrer... de enlouquecer, de acumular, de divagar, de acontecer, de prosseguir, demergulhardenãoconterdenãoguardardemesoltarede gritar ! Mas espero.


***


Não conseguia dormir, nem pensar, nem assistir ao filme na tv, nem outra coisa e nem nada. De repente, sons de trovão invadiram o silêncio do quarto aniquilando a certeza da tv, avivando minha falta de sono e acumulando pensamentos. Eram muitos trovões, imaginei a quantidade de relâmpagos que iluminavam aquela noite de domingo e de falta do que fazer. Os trovões foram cessando, dando lugar ao barulho dos pingos da chuva que caía e lavava o negrume daquela noite onde meu lume jazia. Aí eu me fixei, prestei atenção em todos os sons – e isso foi um embalar – me lembrei de quando chovia nas noites da minha infância de morar em casa de telhas de barro, onde a chuva deixava a saudade ecoando naquele barulho inconfundível de telha molhada e, uma lembrança puxa a outra, que nessa noite eu sorri e chorei baixinho no escuro do quarto, no vazio do lençol, na memória resgatada de presenças acumuladas, nesse inesperado encontro de presente e passado, fundidos nos sons dos trovões, no luzir dos relâmpagos e na água santa da chuva que me fez fechar os olhos e dormir.




Sexta-feira, Novembro 15

 
CEM ANOS...

As horas passam lambuzando de caramelo as esperas. Luciana Mello, a cantora, sentou-se nas expectativas. Seguro uma presença sutil com potentes braços de indiferença. Mas é mentira, é tudo insegurança. Está chegando a hora das mudanças internas. Mudo os móveis de lugar para não atrapalharem a composição que está chegando na estação da reforma de dentro. Cem anos de solidão – muito mais que cem – Mas o Coronel morreu e tudo mudou, tudo voltou ao seu lugar... – Cá, o Coronel morreu !! – ela disse. É, ele tinha uma intuição legal. O trem passou, passou muito rápido em Paranapiacaba rumo a Jundiaí, onde eu queria ser veloz naquela Vila dos Ingleses. E eu me enrosco no inglês arcaico, ainda nem sei falar francês, só sonhar em puro paulistês mesmo. Ôrra !

Vem surgindo pelos cantos dessa cidade que não tem céu, uma porção trêmula de lua, derramando pelas avenidas esburacadas um pouco de alento. Ando carente, o telefone não manda um beijo na boca, e-mail e icq não oferecem um abraço, na esquina não tem ninguém... ligo a televisão e me apaixono de novo pelo olhar embaçado da Zélia Duncan.


Vazio ( ou Etérea )






Quinta-feira, Novembro 14

 
CLUBE DA ESQUINA

Aguando a samambaia, fechei os olhos e senti o seu abraço de alga. Não pude falar com ela, mas fiquei ouvindo ela falar sobre as coisas que aconteceram no corredor enquanto estive fora... me desculpei e fui saindo - samambaia fofoqueira. Fui ter com as rosas na roseira a mesma conversa futil de todos os dias, mas pelo menos é um papo inocente. Falaram dos amores vãos, desmedidos e distantes... eu queria falar sobre a comédia romântica que vivi - digo, assisti - mas não dava tempo, precisava alimentar os animais. Nesse momento eu fui tomar uma canja na cantina do clube da esquina... eu e o Márcio Borges em baixo do braço em forma de livro...

"I wanna hold your haaaaaand"
Beatles






Quarta-feira, Novembro 13

 
MUITO PRAZER

Você tem voz de gente grande - ela disse.
É que eu sou gente grande - respondi e pensei: E minha pele já guarda muitas cicatrizes por dentro e por fora, embora ainda tenha no olho uma avidez de menino que anoitece nas sombras todos os tremores que se dissipam exatos na ausência de uma culpa declarada. Trago ainda na idade, uma identidade marcada de impaciência e de uma branca imperfeição de correr todos os riscos nesse tempo grávido de temores siameses, estes que me alimentam de todas as ervas daninhas para que eu possa continuar aprendendo novas consciências com voracidade de menino tardio.
Adoro ganhar sorrisos. Obrigado !








Terça-feira, Novembro 12

 
CONTO: PAREDES DE ARA
Carlos Costa

Sob o alpendre, na cadeira de balanço, o corpo pendia moroso. O olho preso em cada detalhe ao redor. Nada era novidade, mas em cada entalhe se abria um universo, um largo convite de passear nas horas - amplidão de pensamentos.

Conforme a tarde ia caindo, possibilidades se abriam em cada novo pensamento. Era o tempo ruminando essências, a calma que fortificava venturas, até algumas lágrimas que acenavam ausências - ah, era a vida ainda vergada naquele dorso rugoso, e fagulhas de momentos chispavam memórias escancaradas que preenchiam lacunas diárias - eram histórias que remetiam ao futuro incerto de carência previsível que seria vivida neste ranger de vida.

Com a aproximação da noite, tocava-lhe a fronte um frio pequeno, quase um arrepio. Esse novo vagar era transporte para as próximas horas, as horas mais silentes, as mais solitárias, as únicas que causavam medo. Ele nunca temeu as sombras que se moviam nas madrugadas, temia o pensamento intenso e sem movimento que não podia controlar, os desejos que vinham e o faziam mergulhar em um querer impossível e cheio de impulsos - temia a solidão, queria uma palavra dentro dessa nova lavra que o prendia nessas horas tão terrívelmente exatas, adubadas de espanto enquanto o grito era contido nos cárceres inertes dos ponteiros do relógio que não deixavam o dia raiar.

Sabia que renasceria ileso nesse ciclo de agonia espiralada e paradoxal para recomeçar a esquecer, na cadeira de balanço, onde tudo se transformava, onde a esperança não vinha coberta de obrigação, onde podia apenas esperar.




Segunda-feira, Novembro 11

 
DE HOMENS E LOBOS

É o título do primeiro livro de Otacílio Lang. Homem de interior rico e vasto, encanta com as poderosas imagens que brotam dele e se traduzem em letras, palavras, contos! Acabo de ler o livro e os olhos ainda estão faíscando, ávidos de tudo, querendo mais. O legal disso tudo, é que só recentemente o Otacílio abraçou o seu sonho e pode torná-lo real. Escreveu o livro e foi lançá-lo na Alemanha, e o melhor, se deu conta que nasceu para fazer isso. Um pequeno trecho:

"José ama Maria que ama João que não ama ninguém porque escreve agora um relatório de mil páginas e as costas lhe doem - sempre. José tem os pulsos algemados no sonho e custa a acordar todos os dias para tomar o café-solidão porque tem medo de não encontrar Maria que nunca lhe vê - nunca. Maria tem as pernas quentes de tanta espera e do alto dos seus trinta e sete anos ainda brinca de bonecas - todas também de pernas quentes. João continua escrevendo esse manuscrito faz vinte anos e quer porque quer ficar sozinho encarando o mundo de lado porque acha - sempre - que o mundo não foi feito para sonhar, esquentar as pernas ou outra futilidade qualquer, e sim para reclamar da vida, e usa um relatório dele para si mesmo que nunca vai ter fim - nunca. (...)"

Um beijo Otacílio - o "Deita-Falas", sempre.









Domingo, Novembro 10

 
MEDO

Existe uma janela aberta, mas não existe a vontade de olhar lá fora. Existe chuva caindo na rua, mas existe o medo de se molhar. De que adianta ter asas, se existe o medo de voar? De que adianta uma ponte que não dá em lugar algum, que não se completa e não se concretiza? Uma ponte quebrada de sonhos e ausente de caminhos. De que adianta a vida, se temos medo de vivê-la?!



Broken Bridge And The Dream - Salvador Dali






Sábado, Novembro 9

 
PALIDEZ

Entalhados na pedra, metáfora do tempo, secura de coisa gasta. Os olhos cismam um ponto perdido no fundo da imagem, um caleidoscópio de cores pálidas, pele marcada por rugas nítidas - rotas de fugas, sabedoria acumulada nas preocupações adormecidas. Cumplicidade duradoura em cada momento estendido, em futuros próximos, em passados guardados. O tempo acumulado de grandes abismos, vãos incomensuráveis, partidas tardias, lágrimas alheias, mãos redentoras, chegadas certeiras, decepções consumidas e reflexos empobrecidos. O que fica nas sombras do desassossego é a certeza da sabedoria adquirida, à revelia de canções entoadas, fica no destino traçado, marcado na manchas azuis das mãos trêmulas e nos brancos dos cabelos. Sabedoria conquistada.


Casal de Pedra

Idade. Tempo.
A eternidade em cada momento.







Sexta-feira, Novembro 8

 
Refugio-me no silêncio. Silêncio da chuva gotejando lá fora, na minha lamentação absurda - ops, limitação ...


Pode um poeta não conhecer ortografia e gramática ? Delimitei espaços que bastaram, até que isso se transformasse em armadilha precisa, e agora, o caminho tem uma só direção.

...

Eu só quero o meu silêncio de volta, que fico tranquilo, ainda que imerso nas ausências presentes...


"Nem que eu bebesse o mar, encheria o que eu tenho de fundo." ( Djavan )







Quinta-feira, Novembro 7

 
METÁFORAS

Que meus desejos sejam alimento para o infinito. Que fiquem nas folhas caídas e pálidas de uma tarde outonal. Que fiquem polinizados nas flores e terminem doces e mel. Que terminem anoitecidos de pirilampos e renascidos nas chuvas de um dia nublado. Que sejam alimento para o que fica sem sentido. Que sejam apenas o que são, ainda que não sejam explicação. Que nasça lágrima no meu olho, ainda que salgada, e seja alimento para meus lábios...

Era para ser uma prece, um pedido...

... mas houve uma rajada de vento. Houve uma certeza chegada. E houve um amontoado de silêncios. Então lhe vi sentada no chão sobre um pedaço de tempo, desafiando as horas ( a fio ) nas esperas concentradas. Lhe vi aos pares com uma certa loucura, enraizada de talos e folhas enquanto dos cabelos escorriam nuvens ( o branco era a paz que não se mostrava na idade.. mas lá estava ).

Os desejos são estações. Estação é dedo de Deus a produzir intensidades, a produzir essências. Tenho escondido cuidados de endereço certeiro e hora marcada, guardada no tempo que tem data para chegar, ainda que eu não saiba, ainda que ninguém confirme, que só pequenos lampejos de sentidos pequenos me dêem certeza com um pouco de clareza. Que esse pólen há de se derramar pelas matizes de aconchegar delírios. Que há de se consumar essa loucura. E há de ventar essas verdades, e há de encerrar essa saudade. Que meu grito seja ouvido... que meu gemido seja entendido... que meu amor seja incontido... e que meu destino seja cumprido.






Segunda-feira, Novembro 4

 
O QUE EU NÃO ENTENDO

Queria escrever tudo o que sinto. Queria descrever o que sinto quando ouço certa melodia dedilhada no violão, mas não sai nada. Porque seria necessário escrever um grito... precisaria gritar em francês, alemão e português..


Lou Reed soluça uma canção, tentando me mostrar que não precisa de grito nenhum, talvez apenas colocar aquela virgula no lugar certo, e acentuar direito a vírgula...mas eu tô cansado de tudo isso... preciso ser objetivo... mas como objetivar uma coisa que não entendo ?


Tem um novo som tocando no rádio. Tem uma nova fotografia colada no painel. Tem uma nova montadora de automóveis no país. Tem um novo livro -que eu não vou ler. Tem uma nova guerra. O tempo passa e vai transformando as coisas, me sinto estagnado, boboca... um pokémon que não evolui, obsoleto, descartável . Minha amiga diz que o tempo é nosso amigo, sem querer me perguntei : Será ?


De verdade, eu não sei !


Isso me faz pensar na esperança...


A esperança morreu !
Será ?
Tomara que não.









Domingo, Novembro 3

 
O poema que se casou com a imagem...



Don Quixote - Pablo Picasso

QUIXOTE

No olhar anoitecido apenas o cansaço
pensamento desfocado, distante e sem bojo
apenas um ficar insistente dessa escuridão sem regaço.

E no sonho amanhecido apenas um luzir pálido
ausência das cores matinais na visão casta e sem arrojo
imagens que se agigantam frente ao corpo esquálido.

O arrastar lento das horas dita as cenas que componho
a fuga está no caminho, é a máscara, masmorra, despojo
são moinhos repetidos e lamúrias secas de um cárcere tristonho.

( Carlos Costa )





Sábado, Novembro 2

 
TEMPO

Só recentemente tenho parado para prestar atenção nas coisas que eu faço. Nunca tive curiosidade em saber como eu sou, o que tenho de diferente ou muito igual. Sempre disseram que sou muito observador, e já cheguei à conclusão de que é verdade. Dia desses me peguei sentado numa praça olhando tudo. Tudo mesmo. Todas as folhas cinza das árvores pelo chão caídas, misturadas ao pó da sujeira que se acumulou caindo dos sapatos das pessoas. Ah, as pessoas... São tantas, parecidas e diferentes ao mesmo tempo, expressões, trejeitos, velocidade até. A maioria delas me parece sempre perdida, com aquele olhar fixo e distante, preso na pressa de todo instante de quem tem hora marcada, que tem medo de se atrasar mas não percebe que está consumida nas horas. Pena, por que assim estão sempre alheias, perdidas em coisas distantes onde querem chegar, esquecendo, ou deixando de ver as coisas belas que se apresentam pelo caminho. Só comecei a pensar nisso porque um senhor que não ia a lugar algum, que não estava com pressa, se sentou do meu lado e puxou papo. Numa outra ocasião ia achar ridículo aquele velhinho sentando do meu lado e me falando como se me conhecesse há muito tempo. Mas de alguma forma eu gostei, notei que ele só queria conversar, ser ouvido, sei lá. Se eu estivesse com pressa, não ia me sentir bem, não ia pensar em tudo o que aquele homem já viu na vida, em quantas pessoas ele já fez feliz, em cada tristeza que ele seguramente causou. Olhando pra ele eu vi a vida com outros olhos, efêmera, vã... mas linda e plena de significados. Importa muito o que eu estou fazendo hoje, importa sobretudo para mim, porque eu tenho que olhar para dentro, tenho que buscar minhas respostas dentro de mim. Olhando pra ele eu pude me ver, porque se tiver sorte, serei um velhinho atento e sem pressa circulando por aí...





Sexta-feira, Novembro 1

 
LET IT BE

Fui embora ontem a noite, enquanto olhava fixo na tv e não via nada. Vegetava inerte, ouvindo um riso distante. Tinha um cara na tela dizendo:

Meu, acorda !!

E eu acordei. Estava atravessando a faixa em Abbey Road, os olhos vendo o mundo girar.