Segunda-feira, Dezembro 23

 
Feliz Natal... Próspero Ano Novo...

Felicidades para todos nós..

Até Janeiro..



Sexta-feira, Dezembro 20

 
SACRÁRIO

Porções de mistério nas pequenas gotas de espuma são fragmentos meus, vagueando em mares calados. E as noites em que frações de lua parem essências, são nacos de existência refletindo o meu pálido luzir. E povoam intenções em lacunas adormecidas,
onde livros abertos queimam na fogueira da minha limitação. Apenas faíscas de apelo circundam conscientes no desejo de serem alimento consumido. Guardo as cinzas no relicário dos santos momentos, e enquanto finda a inocência, apareço sarcástico,
despetalando as flores de plástico. A madrugada vem radiosa entrando pelos poros, os talos de sândalo inebriam e iludem, misturam-se às imagens num espelho de absurdos onde o reflexo invertido é mais do que um paradoxo focal.





Quarta-feira, Dezembro 18

 
NO MEU TOM

Te escrevi amores enquanto compunha sons. Proclamei desejo em vários tons. Mas me perdi em alguma parte da escala, então minha nota desafina, o instrumento cala. Procuro meu sentimento diapasão. Logo desisto e quebro as cordas... chega de canção.

***

MATINAL

Abro a janela e vejo no jardim, todo dia, sempre belo, um girassol amarelo.

***

Hoje me sinto esquisito, emudecido, sem vontade ou inspiração. Tem umas palavras colhidas em réstias insones, emoções distraídas, ou leituras engavetadas no peito.
Lendo a Binha calei e escrevi: Ela conseguiu me deixar sem palavras. Emudecido, apesar do peito cheio de expressões contidas, da garganta cheia de nós... fica um silêncio agudo reverberando limitações..
Acho que ainda estou assim. Encarcerado nas memórias, mergulhado nas decepções, obliterado no cansaço, acumulado de pausas, buscando renovar esperanças...












Terça-feira, Dezembro 17

 
PEDRAS DIÁRIAS

Não sei falar das trilhas arcaicas, nem das pedras frias que se derramam duras sobre elas. Nada sei do musgo sobre as pedras, nem do lodo que se acumula sob o peso inerte de cada uma. Nada sei das noites consumidas, nem das manhãs corrompidas, nem da unidade nas pedras, ou dos fragmentos no pó disperso. Da umidade que cria laços, do caminhar que não gera passos, do tempo escasso, eu nada sei. Só divago, só calcário, só indago.


Fotografia : Gianfranco Briceño



Segunda-feira, Dezembro 16

 
PRIMEIRO TEMPO

ACIDEZ

Não quero mais noites insones...
quero ausência de cores...
nem quero aroma de flores...
não quero evidência alguma...
não quero contradições...
hoje eu não quero canções...
não quero rascunho...
não quero fazer nascer poemas...
porque nada quero sentir...
nem ouvir os acordes do meu violão...
quero estar distante, completamente alheio...
não quero sorrisos e nem tristeza,
quero estar indiferente...
não quero querer...
nem quero desejos...
não quero vontades...
nem quero namorar...
não quero dúvidas e nem escolhas...
não quero paradoxos e nem incertezas...
não quero ser querido,
porque não quero ser descartado...
quero estar insensível...
então venha o que vier,
eu não vou precisar sofrer.
( Carlos Costa )

***

SEGUNDO TEMPO

É paradoxal, mas estou feliz. Hoje ( domingo ) teve festa em minha casa, na minha família. Nosso time foi campeão. Deve estar linda aquela cidade querida, de um porto cinza e de gente ( hoje ) feliz. Parabéns, Santos.

***

PRORROGAÇÃO

Mesclei momentos embalado por ventos cotidianos. Fui metade disso enquanto a memória vagava longe em pedaços de saudade. Metade daquilo, enquanto esperanças renovadas reverberavam precisas nas respostas escondidas. Enquanto vivia dividido nesses desafios duais, era uma parte de mim que completava a outra, num abraço real e verdadeiro. Lágrima desconfiada e sorriso escancarado. Um pedido para ficar e a certeza do adeus. Metades que se separam enquanto se confrontam... e teimam harmonizar desencontros. Paradoxos.






Domingo, Dezembro 15

 
POR QUÊ ?

Existe um inseto - uma cigarra ou uma borboleta, não sei - que vive por volta de vinte e sete anos ( ou trinta ), encerrado dentro de um casulo sob a terra. Então depois desse tempo tenebroso, chega enfim a liberdade, e o inseto pode por um dia inteiro voar livre e ver o mundo, e flertar e acasalar, ver o pôr do sol, e ao cair da noite, morrer. Ele vive menos do que um dia inteiro. Dentro dessas minhas horas de melancolia, fica a impressão de que algumas coisas, assim como o inseto em questão, nascem realmente apenas para morrer.







Sexta-feira, Dezembro 13

 
TERCETOS (ou poetrix)


MEU AMOR...

Quando teu olhar de estrela
será cadente
num desejo meu?

***

FALTA

Apago a luz
para não ver
a tua ausência.

***

QUEIMO LIVROS

... e me queimo
na fogueira
da minha limitação.

***

ALVORECER

No fim do pesadelo...
a noite se desfez em mim...
Amanheci.

Carlos Costa









Quinta-feira, Dezembro 12

 
SILÊNCIO

Não sei o que dizer, tomado de silêncios e olhos perdidos nas imagens do dia. Não sei traduzir o que sinto, apenas me sinto invadido por fragmentos de momentos vivos, acesos de espanto dentro de palavras que não brotam nestas lavras de sentimentos cortantes. Na minha frente, a folha de papel intocada e branca em que não escrevo, que não me descrevo. Nas tintas repousam as misturas que não fiz, imagens que não construí, meu eu que não refiz. No canto, sem canto e sem encantos, meu violão deserto, sem entonação, sem minha voz, achado de poeira nas cordas com nós... sem nossa canção. O reflexo distoante e silencioso se faz caminho por onde prossigo, tantas vezes sem nada entender, sem nada perceber, sem palavra que me prenda ou que me liberte, que me intua, que me descarregue, que me traduza.





Terça-feira, Dezembro 10

 
ARAME FARPADO

Me sinto preso, porque minha vida se transformou em um emaranhado de emoções. Como as grades que se juntam para fazer o cerco que se transforma... e prende o pássaro. Como o aço forjado que se cerca... e forma as grades de uma prisão... que prende o condenado. Como a palavra, agregada à lábia e outras palavras que se cercam e formam a religião... que prende o fiel. Como o mais humilde que é devorado pela fome, à muitos, imposta por poucos... e prende a maioria. Me sinto preso de todas as formas... jaulas, coração, camisa de força e arame farpado.


Fotografia: Gianfranco Briceño



Segunda-feira, Dezembro 9

 
Conversando com ELA.

SEM SENTIDO ( consentido )

Tem barulho de chuva nas telhas da memória. Tem uma saudade escondida nas palavras que não pronuncio. Tem um choro escorrido nas paredes do acaso. E tem também um desencontro com tudo isso, tem um modem queimado na última grande tempestade - daquelas que eu gosto de ficar olhando. Tem um sentimento de auto-defesa tentando distrair essa saudade. Tem uma verdade invadindo meus segredos, arrombando degredos em busca de anistia, em busca de resgate, em busca de paz. Tem uma grande vontade de ver sentido nesses fragmentos que me confundem... colocar ordem no caos instalado. Segunda feira... preciso dormir.

"Agora eu pego um caminhão, na lona vou a nocaute outra vez" ( Zé Ramalho )





Sábado, Dezembro 7

 
VENTAÇÃO

Caminhei até aqui só para dizer que existem surpresas nas esquinas, que um vento norte, um vento andino, pode surgir de repente e lançar no ar novas sementes, novos enredos, novas cores. E podem ser breves nesse afagar lento de novas trilhas mostrar, de sutilezas a entrelaçar destinos no enroscar suave de mãos e dedos que se tocam quase sem querer, quase sem perceber... e o vento sereno toca ameno no rosto surpreso.

"O que está acontecendo? Eu estava em paz quando você chegou" (Nando Reis)




Quarta-feira, Dezembro 4

 
DELÍRIO

No trinco da porta do tempo, agora sem trancas, existe um tolo preso na indecisão do momento. Enquanto lá fora, o vento sibila nas taboas uma toada, uma canção que o tolo não entoa. Tendo a espera como pano de fundo e uma lua cheia vespertina como inspiração distraida, o tolo assovia as cores de um amor-perfeito num bailar esquisito de corpo ausente. Nessa hora o peito ardia vazio reverberando lento na sangria da balada. E com mãos de ouríves – toques firmes mas delicados, ele afagava as lembranças tantas... quase esquecidas, esvaídas. Uma sonata labirintíca – sem saídas. E o tolo poderia buscar tudo, mas perdido, não via nada. E a harmonia do medo se pronunciava, o tolo valsava assustado, em sintonia vacilante na música desconhecida, sem saber se lhe tocava na alma ou no coração.

"Mas as pessoas na sala de jantar, estão ocupadas em nascer e morrer" ( Gil e Caetano )






Terça-feira, Dezembro 3

 
LIMPEZA

Estou cansado. Hoje eu fiz uma limpeza por aqui, mas falo disso numa outra hora que ainda tenho poeira nos dedos e o olho cansado de ver tanto papel amassado. Escrevo há pouco mais de três anos, descobri hoje que tinha todos os rascunhos. Cada pedacinho de papel encontrado parecia ter vida própria, história guardada, e tudo espalhado por todos os lados feito memórias abertas em cima da minha cama. Cada rascunho de poema parecia ter voz, cada fotografia parecia ter cheiro, em cada revista um novelo de anotações, lembranças e esperanças. Guardei muitas fotografias e o resto mandei pro lixo. Assim, curto e grosso mesmo, que precisava me libertar de tanta angústia passada e pesada e pisada.

LAÇOS ( Isso foi escrito olhando pra foto da Tetê, minha amiga, quando ela era uma menininha de cinco ou seis anos no Zoológico com a mamãe dela, vendo a girafa e pedindo sorvete )

As fotografias que parecem atalhos no tempo que costura nossos retalhos, um frágil ressurgir de lembranças dos momentos ternos e sorrisos maternos protegendo crianças, a magia que nos envolve nesses laços que nos enchem de saudade dos abraços, dos olhares que não voltarão mais, e que nunca foram tão entendidos, tão queridos. O tempo linear que não volta jamais, já que não pode o passado redimir, mas pode fiar novos tesouros, alvas esperanças, nossas crianças, novos laços a construir.

"Sometimes I feel so happy... Sometimes I feel so sad" ( Lou Reed )










Segunda-feira, Dezembro 2

 
Carta 3 ( sobre os amores )

Tenho anseios que persigo. Idéias que brotam sutís, convergidas em monotonia, dia cheio de pausas, vontades esparsadas, e tudo tão contido... Afloram os amores, aromas de flores, belezas infindas e cores que não cabem em mim.
Esse vagar, de trilhas buscar, amores desafiar e se encontrar... vagante, atemporal, letras assoladas de um peito pleno de amores poéticos, onde letras engavetam corações. A imagem vaga, um poeta divaga, e morre de amor.
Morremos sem morrer e vivemos por viver. Somos sonhos vindouros, almas a fins, pincéis de tantas tintas, beijos de tantos amores. Somos receptivos e nos repetimos enquanto um sorriso novo substitui um olhar conhecido – às vezes acontece. Somos qualquer loucura que se grite nos momentos insanos, nas dores prementes e assoladoras. Um anjo vertente colore cabelos nas manhãs em que desejo o beijo da madrugada que nunca finda. Esses momentos são fugas de uma realidade tenebrosa, quando aceitamos voar sem asas, e deixamos escorrer a fantasia pelos vãos de nossos corações.
Não se pode abrir mão da fantasia, e nem viver no seu eterno abraço.
Em horas intermináveis, eu estive na espreita, na espera. Perdido nos olhos da noite, tão cheios da menina dos cabelos emaranhados, e sem saber por que, queria compor uma lua bela para ela, queria fazer uma ode em exaltação antes que as horas findassem meu sonho, queria a magia de um beijo encantado, antes que a pálida boca, roubasse dela um beijo azul.
Buscava um jeito de arrancar de dentro de mim, uma descrição exata do que acontecia comigo quando a via. Quando ela chegava bem perto e me olhava fundo dentro dos olhos e dizia qualquer coisa. Possuia feitiço nos olhos aquela menina corrida nos dias que me engavetava emoções dentro do coração.
E eu, pasmado e acelerado, não sabia o que dizer, queria escrever um mundo e dar para ela, todas as minhas palavras e letras, juntinhas num poema de peito aberto e amor exposto, mas eu nada dizia. Apenas sentia nos pêlos assustados e no olhar grande, os efeitos daquele olhar-feitiço. Eu poderia colher cheiros de flores desconhecidas penetrando nas matas escuras e úmidas que se ofereciam abertas, mas não podia sair de perto dela, pois o feitiço estava feito, de efeito comprovado que me mantinha assim, atado, apaixonado, enfeitiçado...
Vaguei em imagens retinadas e guardadas, querendo sair às escuras divagando imagens de viagens. Corri até o carro e acelerei o coração enquanto o vento desmanchava meus cabelos e afagava meu corpo. Era desejo de viajar e encurtar distâncias, como se fosse surgir na estrada, feito uma gérbera o meu amor, de olhos grandes e negros e vivos, ávidos de tudo ao redor, num olhar que terminaria em mim.
Magia? Fantasia? Perdição.
Criei asas para voar sobre as casas dos meus anseios. Faltava leveza e graça, mas podia ser um pássaro torto, mas nunca de sonho morto. Procuro palavras para seduzir as teclas, deitar letras e conduzir idéias, te falar de como aspirei sorrisos hoje pela manhã, quando o sol dourava os caminhos que eu percorria, caminhos de um querer insistente de beleza comovente que não tocava aquela alma como eu queria, pois ela só via a beleza de faróis que lhe sorriam ao longe, numa trilha correta, diferente dos castelos que construí, onde a beleza correu paralela, e o meu querer foi mera quimera...
Águas insanas açoitaram meus dias enquanto céus choraram tempestades, anunciadas por estrondos naturais, arautos dos temporais que banharam almas e provocaram miragens e vertigens quando cederam à calmaria. E a tormenta, vencida, se esvaiu do meu caminho após ter prestado o seu papel: Carregar as dores e mágoas nas suas águas, reavivando em anistia toda a alegria de um dia que até então era disforme, mas agora, as vontades são amarelas, e os anseios renascidos.






Domingo, Dezembro 1

 
FALTANDO TEMPO...

... e disposição para sentar o pensamento nesse espaço, largar com rudeza na imaginária folha todo o peso do meu dedo virtual, falar do que me irrita nessas horas de ponteiros lentos, ponteiros morteiros que insistem no canhar.

SOBRA ESPAÇO...

... no meu pensamento largo para acomodar as imagens que fizeram meu dia sorrir. No cinema, do meu lado, tinha a menininha da covinha do lado da boca. Ela que roubou todas as cenas com a gargalhada vigorosa e potente, que fez rir a mim e a todos que a ouviam, que não queria pipoca - sabe-se lá por que - e insistiu em pedir pão de queijo com guaraná. Mais sorrisos...

"Basta imaginar e ele está partindo, sereno, lindo, e se a gente quiser... ele vai pousar" ( Toquinho )