Quarta-feira, Abril 30

 
BUSCAS

Na negra noite em que choviam meus anseios, vaguearam libertos meus segredos,
cadeados abertos e o espírito transitório
– buscando razões.

( Carlos Costa )

***

SOBRAS

Emudeci as histórias nos cantos da casa...
Deflagrei a solidão que habita nas paredes do acaso...
Varri estilhas de sotãos e porões...
Adormeci e acordei entre partilhas e partidas...

( Carlos Costa )



Domingo, Abril 27

 
PEDAÇOS

Existe uma parte de mim que quer escrever um poema. Buscar palavras que representem o silencio que me habita. Mas a mudez se traduz na folha branca e intocada.
Existe uma outra parte de mim que quer fazer canção. Buscar notas que personifiquem o refrão do amanhecimento. Mas para achar esse tom nem mesmo existe o dom, e os acordes continuam adormecidos na melodiosa sonata dos desenganos.
Existe ainda uma outra parte de mim que não consigo ouvir e nem ler e nem ver. É nela que tudo começa. É nela que o silêncio se derrama, que o tempo disfarça fracassos em mal acabadas rimas mortas e palavras tortas, é nela que o descaso chega manso e toma conta, distribuindo bordoadas e enfiando pequenos alfinetes na pele. Enfim, é essa a parte que se incomoda com o destino gastando as unhas na parede, que não se acomoda quando desvio minha atenção da toada cheia de bemóis que irei plantar, ou do jardim cheio de girassóis que irei compor.
Mas tem uma outra parte, essa incerta, que às vezes se cansa de tudo isso e sai girando um cata-vento monossilábico, buscando em varandas e sacadas e parapeitos, um lugar qualquer, um canto que não tenha esquinas muito nítidas e que acomodem eternidades sonhadas.

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RETORNOS

Teu silêncio perfura as redes da minha espera estendida,
o tempo de te esperar alegre já passou.
Fica um vento mouco a me soprar desavenças...
é tanta varanda e eu preso no teu cheiro ainda.

( Carlos Costa )

“O tempo de te esperar alegre já passou" Frase de Márcia Midori








Terça-feira, Abril 22

 
JEITIM

É assim mesmo, desse jeito, com o rosto vermelho. Pô, na verdade, sem jeito. Mas espere aí, não se afobe ainda, porque no final tudo pode e tudo acontece. Eu dou um jeito. Espera só um instante... até eu pegar o “jeito da coisa”...

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ESPELHO

Não me dê as costas. Eu sei por onde você andou e o que você fez. Nem adianta me olhar de lado com esse olhar embaçado de hálito amanhecido e derramado em hortelã. Eu sei dos seus segredos e dos seus medos. Eu sei da canção que você não canta e do instrumento que você não toca. Sei até quanto tempo faz que você não se toca. Não adianta me ignorar e nem baixar os olhos. Continuo aqui... continuo aí.. continuo dentro da gente. Mas amanhã a gente troca, você fala e eu escuto.

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NA VITROLA

Lembra de mim - Ivan Lins
Vieste - Ivan Lins







Sexta-feira, Abril 18

 
PÁSSAROS

Desabrocha uma pequena estrela na noite
E é no peito que busco seu brilho intenso
É nos olhos que se amontoam pétalas caídas
E avivam cores enquanto escondem amores.

No espaço voam destinos lançados ao vento
Desencontros marcados pousando indiferentes
Asas abertas e incertas, penas azuladas e tristes
Esquece o pranto desses grandiosos finais
Pássaro de encanto e dos pequenos sinais.

( Carlos Costa )




Segunda-feira, Abril 14

 
CARTAS

Houve um tempo em que eu escrevia mensagens e colocava dentro de uma garrafa, depois atirava no mar virtual em que navegamos, tantas vezes náufragos, tantas vezes perdidos, tantas vezes salvos... Achei uma dessas cartas agora, voltou com a maré... Esse trecho chamou a atenção por causa do drama ( risos ):

"...e não minto quando digo isso, a briga dentro de mim é muito grande. Me sinto cada dia mais fragmentado por uma saudade estúpida e poderosa, que me acaricia e que me arranha, que me beija e depois me morde, me faz nascer e me mata logo em seguida(...)."

Tem outras garrafas, talvez acabe colocando aqui tbm... ou não.


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Um poema enviado por uma amiga. Achei lindo, e por isso, resolvi colocar aqui. Vale lembrar que em italiano, a palavra "carina" significa "querida".

CARINA

“Andiamo, amore mio !” – disseste.
E eu disse “Andiamo !”
(O céu estava azul e frio. O vento erguia,
Na longa encosta gris da altiva serrania,
O escasso nevoeiro). Após, disseste: “Io t’amo !”
(Um pássaro cantava, oculto em qualquer ramo
De uma árvore qualquer, a eterna melodia
Dos pássaros comuns. Era inda novo o dia)
E eu repeti, num eco: “Amor mio, io t’amo !”

Depois, muito depois (Estava triste e frio
O entardecer, porém mais gélido e tristonho
O teu olhar, Carina), murmuraste: “Addio !”
E nunca mais te vi... Estou tão triste, agora !
Ah! Se voltaras tu, mesmo que fora em sonho
“Carina, torna a me !... Carina, io t’amo ancora !”

Clóvis Soares Siedler




Quarta-feira, Abril 9

 
NA VITROLA (tocando muito)

Radiohead – No surprises
Beatles – The long and winding road
The Cramberries – Ode to my family

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MISTÉRIOS

Precisaria contar todos os detalhes. Precisaria contar a história desde o início. Precisaria mostrar os pêlos arrepiados do meu braço, porque essas coisas sempre me arrepiam. Precisaria de espaço e tempo que eu não tenho. Então vou resumir:
Dia desses, uma amiga me falou de um sonho que se repete sempre ( um deles, ela tem vários ), e ela via um lugar, uma casa. Meio que ao acaso, um dia, ela encontrou essa tal casa. Foi incrível porque todos os detalhes que ela via no sonho lá estavam, e até as pessoas para quem ela havia contado do sonho se espantaram, já que a descrição havia sido exata. Há outro sonho, com outra casa. Nesse sonho, ela se vê no quintal de uma casa que parece ser num sítio, escavando o chão, porque ali há um balde cheio de ouro. O sonho sempre era so até aí, mas hoje o sonho voltou a se repetir e ela pôde ver mais detalhes. Viu um casebre, uma rua sem saída onde começava o quintal. Me ligou pela manhã e contou desse sonho, da casa, de tudo. Disse que sabia onde era o bairro e perguntou se eu queria ir. Fomos. Foi muito excitante, porque o bairro é enorme e rodamos muito de carro, entramos em rua de terra também, mas não foi hoje que achamos casebre do “sítio do balde de ouro”, mas vamos procurar de novo outro dia... como eu disse antes, precisava mesmo era “mostrar a imagem”. O mais legal era saber que de repente, do nada, podia aparecer a tal rua sem saída...

***

O engraçado é que ela saiu para procurar a casa dela, mas parece que eu é que acabei esbarrando na placa que indica a direção do meu quintalzinho... Voltei pra casa a pé ( não tinha feito ainda a caminhada diária ), sem prestar atenção na paisagem e nem nas pessoas. Impressões surgidas depois de sonhos, cafés e conversas.. olhar no infinito.




Segunda-feira, Abril 7

 
PRA COMEÇAR

Queria no mínimo, uma semana igual a outra que se passou. Com muita música, Jardins do parque da Luz, Café-Bar da Pinacoteca, árvores, passeio, bolo de cenoura na Móoca, sessão da tarde com as crianças, pipoca ( está frio pra sorvete ) e sonhos..


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NA VITROLA

Resposta - Skank
A Estrada - Cidade Negra
Sentado à beira do caminho - Erasmo Carlos

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TOQUE ( março )

Tardinha caindo
Blusa leve sobre os ombros
O estalar de folhas secas sob os pés
É outono
Estação de árvores nuas
O vento ameno traz saudade
Uma saudade visível e palpável :
Posso tocá-la na pinha
recém caida de uma Araucária.

( Carlos Costa )



Sexta-feira, Abril 4

 
MAS EU TE DISSE !!

Assistindo tv com meus filhos numa tarde dessas, me surpreendi com um desenho que passava na minha infância, um desenho que eu sempre quis ver de novo e nunca mais tinha passado. Cocótas e Motocas, a histórinha de um carrinho, um fusquinha chamado Willy que namora com uma.. bem... menina.. carro... ah, uma versão feminina conversível ..hehehe. Tinha também a galerinha que sempre aprontava, eram umas motos feiosas. No final de cada episódio, quando as motocas se davam mal, sempre tinha uma que ficava falando pro chefe deles que tinha avisado que o plano não daria certo. - Eu te disse, eu te disse! - Eu sei... Mas eu te disse..
O chato foi ter contado pros meus filhos que eu assistia aquele desenho quando tinha a idade deles e minha filha, Renata, virar pra mim e dizer:
- Mas, Cá... quando você tinha meu tamanho já existia televisão?

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JUÍZO

Acho que finalmente estou "tomando jeito".

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Um poema que eu adoro. É de um poeta maravilhoso, dos melhores que já li.

"Avezinha do telhado.
Já nem lembro quando partiste ou me acenaste.
No pântano em volta de minha casa ninguém repara que o sol brilha trocista.
Quem déra ter asas e voar.

Do telhado cai a chuva espessa de beiral.
Aqueço as friuras em leite-mel.
Sonho que você vem.
Quem dera ter asas e ... ficar".

(Yno)