É tempo de ter tempo. É tempo de arrumar os livros na estante. É tempo de tirar o pó acumulado em cima dos móveis de dentro. É tempo de gritar o silêncio que habitou em cada surpresa. É tempo de gentilezas. É tempo de observar miudezas cotidianas e entardecer olhares disfarçados, porque existe uma música muito antiga tocando no rádio aproximando o delírio do chão. Existe um salto a ser dado e é tempo de aprender a cair. Existem escolhas, caminhos, muita coisa pra fazer... e é tempo de ter um pouquinho mais de tempo no meio dessa agitação que tropeça nas necessidades e nunca se acaba.
Na solidão em que desperto, quase adormeço...
embalado por promessas que não foram feitas,
apenas sonhadas, apenas queridas...
apenas desejadas em um tempo
que já se faz esquecido.
Quisera eu poder mergulhar nesse adormecer tardio
para lá no fundo encontrar tudo...
me cumprir.
A efemeridade do tempo que chega de sobressalto, e toma de assalto os pensamentos mais fugazes, criando vales inteiros de dúvidas, profundidades abissais e mergulhos kamikazes no espaço aberto de cada questão. No filme super-8 preto e branco-amarelado em contraste com a parede branca dentro do quarto escuro, sombras projetadas de pessoas desbotadas pelo tempo, gente antiga e desconhecida. A história passou, o tempo apagou quase tudo.. menos a imagem do filme no rolo da máquina que agora fica rodando amiúde...
Bem, o filme do meu tempo será colorido e cheio de sorrisos!
Repousa, menino... Deita esse olhar entristecido no espelho das verdades expostas, nessas imagens impostas, em cenas que aparecem moídas onde deveria haver uma pedra polida. Calcina estradas na terra batida onde surge agastado o coração enevoado. Guarda segredos num casebre de conter mistérios. A noite luada transforma vagalumes em nacos de sonhos espalhados por toda parte, em cada sombra uma nova revelação. O beijo sem tema. Apenas lampejos, apenas faíscas frequentes de Deus. Em meus braços, menino, acolho teus novelos, todos esses tesouros. Ouço os apelos e recolho na réstia de voz a força existente na foz dos olhos teus...
***
PARATY
As pedras de Paraty não criaram limo... As noites chegavam com cores diferentes,
com ventos dançantes nas esquinas perdidas de sombras, com meninas sorrindo tantas canções, com a alegria do meu amigo, a falta de movimento na dança do meu articulado irmão, o desabafo da minha irmã... E eu e as pedras e tudo isso junto misturado num sorriso de sabor doce...