Ele se via dentro de um barco pequeno, cercado de água, cercado de mar. Ele olhava em volta e não via os remos. Olhava o horizonte e não “sentia” a direção. Olhava para o céu noturno e se lembrava que não sabia ler estrelas – continuava sem direção. De repente, como se estivesse num sonho, ele sentiu como se estivesse deixando seu corpo no barquinho e ia vendo tudo de cima. Quanto mais subia, mais o barquinho com seu corpo ia diminuindo, ficando muito pequenino até ser apenas um pontinho... Então olhou ao longe buscando horizontes, buscando paragens e direções. Não viu nada além de água... Esqueceu-se dos remos e das direções. Cheio de esperança deixou-se navegar...
Barulhinho de chuva preenchendo a noite inteira, embalando pensamentos, acolhendo vontades. Parece que até a compreensão de todas as coisas chega mais larga, mais próxima. Parece... Certas coisas, certas atitudes, certas pessoas eu acho que não vou entender nunca!
***
PASSEIO
No cinema, a menininha gargalhando ( ela sempre gargalha ) umedece meus olhos e não caibo em mim... não sei se rio ou se choro.
Na caminhada vespertina, o garoto conta uma piada de português que eu conheço desde quando tinha a idade dele. Não me contive e chorei de rir como há muito não ria...
O que pode ser MAIS importante que isso? Sei lá, mas se tiver algo, deve ser pouca coisa... bem pouca mesmo.
Estou com sono e não consigo dormir assim, com a luz apagada. A vontade é me virar e acender o abajour, mas não consigo. Sei que não existe um monstro horrendo só esperando que eu me vire para me matar de susto, mas isso também tem a ver com o fato de tomar a decisão e encarar o problema de frente. Se eu conseguisse me virar, seria fácil acender a luz do abajour. Do jeito que está, fico sem dormir imaginando motivos para não me mover enquanto o monstro inexistente passa a noite toda rindo de mim na minha imaginação poderosa, fértil e cheia de medo...
"Eis –me aí, aos pedaços
pronto a ser devorado
aos poucos...
servido como gostas.
Tanto tinha a dar-te enquanto vivo
Mesmo agora
meu olhar jaz entristecido
e ainda assim não notas
Sepultos restos
em pérfida indiferença
Sonhos aprisionados
em gélida presença
Desejo enfadonho
dilacerar-te em dor
envenenando-te lento
com meu desprezado amor".
Ela estava como que um jardim sem flores. Amanhecida em gritos imprecisos que reverberavam dentro do peito implodido, fragmentado, contido... À sua volta um silêncio estranho, um sorriso de estanho rondando seus atos, uma lágrima rolada, barrada pelo seu dedo magro antes de chegar ao lábio. Ela precisava de sementes para o jardim do seu coração. Talvez dessa vez o tempo impreciso lhe presenteasse com o improvável – apenas algumas horas para ver um novo sol raiando, uma nova estrela nascendo, uma nova estação chegando...
LENDO A CANÇÃO :
O Homem – Raul Seixas
No momento em que ia partir, eu resolvi voltar... Vou voltar! Sei que não chegou a hora de ir embora, é melhor ficar. Sei que tem gente cantando, tem gente esperando a hora de chegar. Chego com as águas turvas, eu fiz tantas curvas prá poder cantar. Esse meu canto que não presta, que tanta gente então detesta, mas isso é tudo o que me resta nessa festa....
Vou ferver! Como que um vulcão em chamas, como a tua cama, que me faz tremer... como um chão de terremotos, como o amor remoto, que eu não sei viver... Vou poder contar meus filhos, caminhar nos trilhos, isso é prá valer. Pois se uma estrela há de brilhar, outra então tem que se apagar. Quero estar vivo para ver o sol nascer...
Vou subir! Pelo elevador dos fundos que carrega o mundo sem sequer sentir. Vou sentir! Que a minha dor no peito que eu escondi direito agora vai surgir... numa tempestade doida, prá varrer as ruas em que eu vou seguir.